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Cinema · Reportagem

Cinemas de bairro voltam ao debate com curadoria inédita

Diretores independentes lançam um projeto que percorre cinco capitais brasileiras resgatando a memória das salas que fecharam. É um convite a discutir o que a cidade perdeu — e o que ainda dá para salvar.

Por Ana Beatriz Sá · Publicado em 6 de julho de 2026 · atualizado em 6 de julho de 2026 · 6 min de leitura

A primeira sessão aconteceu numa quinta-feira chuvosa, numa sala cedida por uma associação de bairro no centro de São Paulo. Quarenta cadeiras, projetor improvisado, pipoca doada pela padoca da esquina. Entrou gente até sentar no chão. O filme era uma cópia restaurada de uma produção brasileira dos anos 1980 que há décadas ninguém via numa tela grande. Ao fim, ninguém quis ir embora.

Essa sessão foi o embrião do projeto que ganhou forma agora: uma curadoria itinerante que vai passar por cinco capitais — São Paulo, Rio, Recife, Belo Horizonte e Porto Alegre — mapeando e reativando, ainda que por uma noite, os cinemas de bairro que já não existem mais. A ideia não é resgatar o passado com nostalgia piegas. É provocar uma pergunta concreta: por que essas salas fecharam, e o que isso significou para a cidade?

O que a curadoria propõe

O time por trás do projeto reúne quatro diretores independentes e uma arquivista. Durante dois anos, eles levantaram endereços, fichas técnicas e depoimentos de antigos frequentadores. O resultado é um acervo que mistura cinema, memória oral e cartografia urbana.

Quisemos fugir da nostalgia que só lamenta. A pergunta é política: que cidade produz salas de cinema e depois as deixa morrer?

A frase é de Helena Tavares, uma das curadoras. Para ela, o cinema de bairro não era apenas um lugar de ver filme — era um equipamento cultural de uso coletivo, que cumpria função social que nenhuma plataforma de streaming cumpre. Quando ele fecha, some com ele um pedaço da vida pública do bairro.

O que os números mostram

Os dados do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA) confirmam a tendência que o projeto denuncia. Nas últimas três décadas, o número de salas no país cresceu nos grandes centros, mas encolheu drasticamente nas periferias e em cidades pequenas. O cinema que restou, em sua maioria, está dentro de shoppings de classe média, longe de onde mora a maior parte da população.

A consequência é dupla. Do ponto de vista do acesso, milhões de brasileiros nunca entraram numa sala de exibição. Do ponto de vista da produção, o público que poderia ver cinema brasileiro simplesmente não tem onde vê-lo — o que reduz a janela de bilheteria e desestimula o investimento em filmes nacionais de menor apelo comercial.

O que muda, na prática

O projeto não pretende reabrir cinemas — não tem dinheiro nem estrutura para isso. Mas espera produzir algo que falta: consciência. As sessões itinerantes vêm acompanhadas de debates com moradores, exibição de filmes locais e um mapa digital, aberto, onde qualquer pessoa pode cadastrar uma sala que fechou.

Para os diretores, esse mapeamento é o ponto de partida para futuras políticas públicas. Sem dado, não há reivindicação que se sustente. E sem reivindicação, não há cidade que resista.

Tags: cinemaculturacidadesmemória
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Ana Beatriz Sá

Editora de cinema da Span. Crítica há 14 anos, escreve sobre cinema brasileiro e documentário.